Wednesday, April 26, 2006

A Besta Em Mim


Estado catatônico, é o que eu chamaria. Nunca em toda minha vida pude presenciar algo tão sobrenatural, e justo eu que sou um homem da ciência, completamente desapegado a dogmas, superstições, crenças e etc. e tal. - todas essas coisas sempre foram para mim fraquezas do ser humano, falta de coragem em assumir o que realmente se sente, e se é. Mas diante de tal acontecido, tudo foi por água abaixo. Um calafrio subiu pela minha espinha, pernas bambas, suor frio. Naquele momento desejei que “algo” me protegesse, e percebi que eu estava com aquilo que jamais poderia imaginar, um sentimento muito distante voltou a me habitar, sem poder evitar, ele... o medo.
Subo as escadas às pressas para que as pessoas no hall não percebam meu estado calamitoso, e na escuridão desses degraus sinto uma presença, que parece ser humana, consigo ouvir um batimento cardíaco, uma respiração. Tenho a impressão de que há alguém aqui, mas eu não posso ver. Espero para ver se alguém aparece, mas nada. Acendo meu isqueiro para iluminar um pouco essas escadas e subo em direção ao corredor, onde a presença se intensifica.
Um outro sentimento surtiu em meu coração, reagindo ao medo que se apossara de mim, agora eu quero descobrir o que é “isto”, essa “coisa” que me persegue.
O corredor vazio, semi-escuro, ninguém, nenhum ser humano, aparentemente; mas eu reconheço essa gana que cresce em meus nervos, e acontece quando estou para matar. Não há dúvida, há alguém aqui. Mas onde?
Estou perdendo a razão, suo e agora é um suor quente de uma fera que sente o cheiro da sua presa, meu coração acelera. No teto embolorado o desenho das flores me olha desafiador, não consigo descobrir de onde vem esta respiração, esta batida de coração, que agora estão aceleradas. Estou prestes a cometer uma loucura, minha vontade é de arrancar o papel da parede, chutar as portas dos quartos, e se algum ser humano cruzar a minha visão, estrangula-lo.
Saio dali correndo, subindo até o quinto andar pelas escadas, um misto de medo e raiva se misturam e meus pensamentos já quase não existem, só um instinto, uma fome; preciso vencer, preciso acabar, preciso matar. Não sou um homem, sou um animal em caçada. Meus olhos estão dilatados, a visão dos degraus é contorcida.
Meu quarto.
Entro e fecho a porta, minha respiração é ofegante, suo muito, em bicas.
Uma dose.
Um comprimido. Dois. Três. Quatro.
Deito-me.
Minha razão já está voltando, preciso de algo mais forte. Uma injeção. Um pico!
Meus músculos relaxam, minha mente se dilata, minha consciência transita entre o aqui e o acolá dos pensamentos; imagens da mente se fundem com as imagens da realidade.
Um lobo grande mostra suas mandíbulas afiadas, de onde escorrem um sangue viscoso com pedaços de carne; a cama se aproxima, tiro a roupa, deito-me; o urso me ataca com as garras; o ventilador do teto está a mil por hora; estou no meio de um ciclone escuro, não tenho controle, meu corpo é levado pelo vento forte; pego um copo com whiskey, bebo tudo, em minhas mãos: pêlos, muitos pêlos escuros, minhas unhas pretas e grandes, pontudas; solto um grito, um grunhido!
Meus dentes não cabem em minha boca; caio do ciclone num lodo repugnante, corro, preciso sair daqui, fugir; bato como rosto no chão, não agüento mais.
Escuridão.

Saturday, April 22, 2006

O Extraordinário

Epa! O que é isso?
De repente em minha frente, um vulto negro, magro com os olhos vermelhos e flamejantes. Carrega consigo um saco preto, está envolto por uma espécie de névoa cinza. Corre, passa por mim. Volto todo meu pescoço acompanhando seu trajeto pelo hall, vejo-o atravessar os vidros da porta sem quebrá-los. O que é isto? O vulto mistura-se com a noite e desaparece.
Tenho a impressão de que todas as pessoas do hall congelaram, como se o tempo parasse por um instante.
Vejo um rapaz completamente bêbado passar por mim. Ele parecia estar andando num asfalto mole, seus passos eram lentos e pesados, mas ao mesmo tempo algo o arrastava para fora. Um tapete de piche fazia com que seus pés deslizassem para rua, deixando como rastro um cheiro insuportável. Nunca havia sentido um cheiro tão ruim em toda a minha vida, e o aroma se exalava daquele ser humano.
Este lugar é um lugar realmente extraordinário.

Monday, April 17, 2006

Café da Tarde


Acabo de acordar após um sono profundo e reconfortante. Abro a janela e o dia já está quase acabando, 18h37. Ressoam aos meus ouvidos as palavras daquele rapaz, o tal, recepcionista, “O bar abre às 18h!”
Hum, que tal um café expresso bem forte, seguido de uma dose?
Banho.
Barba.
Perfume.
Roupas.
Saio pelo corredor. O tapete vermelho meio rasgado, a parede descascada...O teto embolorado dá a impressão de ter flores desenhadas. É realmente charmosa essa decadência!
Jazz tocando. Os donos têm bom gosto, embora não tenham dinheiro. Quanta generosidade a minha, acho que acordei bem humorado.
NO balcão uma criatura ambígua, não sei se é homem ou mulher, andrógino(a). Mas não me desperta grandes interesses.
“Por favor, um café expresso bem forte. Ah, também um cheeseburger, com carne mal passada, yogurte integral, aveia e mel. Vou sentar-me ali naquela mesa do canto.”
“Desculpe senhor, mas não temos isso para servir.”
“Então pode providenciar, enquanto isso me sirva uma dose de Jameson com uma pedra de gelo. Aqui está o dinheiro, o troco é seu.”
A decoração é legal. Vermelho, estofados de couro, meia luz, fotos na parede. Quem são? Ah, divas do cinema. Ok.
Lá vem ela, a criatura, meio macho, meio fêmea. Como alguém pode se submeter à...deixa pra lá, não vou gastar neurônios com isso.
“Aqui está senhor”.
“Muito obrigado, meu bem.” (afetado)
“As outras coisas já estão sendo providenciadas, aqui nós não temos muitos recursos, mas fazemos o possível para satisfazer os hóspedes.”
“Perfeito. Prá mim, fazer o possível já é mais que o suficiente”. (afetado)
“Com licença?”
“Toda.”
Cigarro.
Eduardo.
“Com licença, Dr. Navarro, o hóspede do quarto 13 deixou este bilhete para o senhor”.
“Obrigado”.
“Por sua culpa...o Eduardo...zombie no meu quarto...”
? Paranóia. Desestruturação. Vou escrever uma resposta à altura.
(...)
My breakfest!!
“Dr. Navarro, acrescentamos também umas tiras de bacon, espero que não se importe.”
“Vocês todos aqui são uns amores, estou me sentindo em casa. Thankyou.”
Frank Sinatra. Oh my God!
“I´ve got you, under my skin…”
(...)
Hum, delicious!
Nossa, como encheu esta espelunca! Está esquentando!
Ora, ora, uma boneca sentada no balcão. Vou até lá.
“Com licença?”
“Toda.”
É incrível como as mulheres caem por mim, não precisa muito, bastam poucas palavras saírem da minha boca, e elas logo se abrem.
“Aceita um drink?”
“Claro.”
“O criat..., meu bem! Dois Jameson’s, por favor.”
“Hospede?”
“Não, passante.”
“Trabalha por perto.”
“Sim, nas redondezas.”
“Sei.”
“Um brinde...À vida.”
“À vida.”
“E você, hospede?”
“Sim, cheguei ontem. Sou médico, trabalho com autópsia em crimes misteriosos, e faço algumas cirurgias, em clínicas distintas.”
“Sei. Você é da polícia.”
“Não, de jeito nenhum, apenas presto serviços para ela, em troca de alguns favores...sabe como é, nunca se sabe quando vai precisar “esquentar as costas.”
Olhar.
A felicidade me desperta a língua, quando me sinto bem acabo falando demais. Ok.
“Quer subir, conhecer meu quarto?”
“São 50,00.”
“Por hora? Há, há, há...Vamos!”
Muito bem, eu já estava mesmo com um certo tesãozinho se manifestando, acho que a refeição me “abriu o apetite”. Gosto desse estilo de prostitutas, são inteligentes, essa me olha de um jeito bem interessante, ela sabe das coisas, caminha com classe, tem o corpo magro, é alta, poderia ser modelo se quisesse, é bonita, muito bonita.
“Qual o seu nome?”
“Francine. E o seu?”
“Ramón.”
Beijo.
Aperto.
Ela me chupa. Faz meu membro enrijecer em sua boca.
É uma profissional. Toma as rédeas.
Pra cama. Espera me de quatro.
É só entrar.
(...)
Que delícia de sexo.
Fumamos juntos um cigarro e tomamos um drink, romântico.
É óbvio que ainda não estou satisfeito. Falta ainda o prazer maior, aquele que irá acalentar minha alma. Mas vou saborear mais essa mulher, ela é muito gostosa para morrer assim tão rápido.
“Vou te levar para outro lugar.”
“Onde?”
“Surpresa.”
“Tome, os 50,00 da primeira e mais 100,00. Agora vamos.”
Gosto desse momento, a adrenalina sobe, todo cuidado é pouco, ninguém pode nos ver. A partir de agora se inicia a intenção maléfica de cometer um crime. Até então eu estava sendo sincero, gozei de prazer e foi verdade, agradei essa mulher e foi verdade, dei prazer a ela e foi verdade, mas agora o que eu quero é a sua vida, então a partir de agora tudo o que eu fizer será para conseguir isso. Vou mata-la.
“Meu carro está estacionado atrás do hotel, me dê sua mão.”
Mãos suadas, quentes, sinto seu perfume misturado ao meu, estou excitado novamente, mas agora preciso de mais para me satisfazer.
Dou-lhe um beijo, ali no escuro da rua deserta.
Ninguém.
Não vou agüentar esperar e sair dalí, vou mata-la agora.
Minhas mãos percorrem seu corpo, acariciam seus seios, meus polegares tocam seu rosto redesenhando seus belos traços, param em seus olhos e, ela começa a ficar assustada e isso me dá mais prazer, brinco com ela.
Tiro do bolso um lenço branco e num movimento preciso - que só os médicos têm quando aplicam uma injeção numa criança rebelde – enfio em sua garganta com meus dois indicadores direitos, ela engasga enquanto eu furo seus olhos com meus polegares, com muita força até sentir seus lindos olhos afundarem em seu crânio, ela estremece e por fim, morre.
Arrumo seu corpo ali junto a uns entulhos, provavelmente levarão uns dois dias para que alguém o perceba, só mesmo quando começar a feder.
The Horror Palace Hotel.
Escadas.
Eduardo.
“Linda noite não Dr.?”
“Linda.”
“Deu-se bem hoje, não doutor? Bem gostosinha a Francine, ela faz ponto por aqui há muito tempo. Vi quando vocês subiram para o seu quarto...”
“Achei que a sua função era cuidar da recepção. Não sabia que além disso cuida da vida dos hospedes também.”
“Desculpe senhor, é que eu estava passando pelo corredor quando vocês saíram do bar.”
Vou ter que mata-lo, mas ele é tão insosso que não me desperta vontade.
“Boa noite Eduardo.”
“Boa noite Dr.”
O bar ainda está movimentado. A música está alta.
Mais um drink. Para comemorar.

Thursday, April 13, 2006

Serviço de Quarto

“Aqui está seu pedido Dr. Navarro.”
Ele entra no meu quarto, e apóia o balde de gelo e as garrafas na mesa.
“Não foi fácil encontrar a esta hora da madrugada, num lugar distante como este...”
“A sorte foi que conheço o porteiro de uma boate aqui perto, e ele me vendeu as garrafas.”
“Bem, foi mais caro é claro, usei quase todo o dinheiro que o Doutor havia me dado.”
(...)
“Neste hotel fazemos questão de primar pela excelência do serviço, por isso vou abrir a primeira garrafa e servi-lo.”
Ele faz o que diz. Serve um copo com duas pedras de gelo e me entrega.
“Oh, espero que o número de pedras de gelo esteja de acordo, devia ter lhe perguntado antes de servir...”
Está excelente.
O rapaz fica parado na minha frente me olhando com um sorriso estúpido estampado no rosto, na certa esperando a gorjeta. Dou o primeiro gole no drink olhando para ele. Percebo que tem cílios grandes, gosto de homens com cílios grandes, também tem os traços delicados, embora sua estrutura óssea do rosto seja bem viril, estilo aqueles atores de filmes antigos, sua pele é fina e coberta de sardas, olhos castanhos escuros, boca bem desenhada.
Posso sentir o arrepio na espinha, a temperatura se alterando, o coração começa a acelerar. Poderia dar um soco neste cara-de-pau, e amassar esse sorrisinho ridículo. Segurar forte seu pescocinho de moça, apertando até ele quase não poder mais respirar, batendo sua cabeça contra a parede. Por fim destroncaria seu pescoço como se faz com frangos aos domingos, amarraria o infeliz de ponta cabeça bem no centro do quarto e deixaria seu sangue escorrendo.
Mas não seria inteligente cometer um crime tão explícito, num quarto de hotel, ainda mais onde me hospedei.
Expire esse ar, renove por outro.
Agora pode ir, agradeço pelas garrafas e pelo gelo, mas da próxima vez seja mais inteligente e consiga por um preço melhor, assim terá sua gorjeta.
O rapaz sai desconcertado. A porta se fecha.
A brisa quente da madrugada invade o quarto.
Na maleta uma cartela de comprimidos, dois para dormir.

Wednesday, April 12, 2006

Sonho

Deitado na cama, percebo o ventilador de teto girando lentamente. Estranho esse quarto, a luminária já acesa quando entrei – ok, isso é comum em hotéis -, mas esse ventilador não deveria estar ligado...Bobagem. Estou com sono.
O movimento lento do ventilador me ajuda a dormir. Sonho.
Corcéis brancos enormes cavalgam sobre as nuvens, ao fundo um céu azul com poucas nuvens.
Os corcéis se multiplicam, cavalgam em direção a uma passagem, uma abertura, como uma caverna, todos os milhares de corcéis entram em algo que parece ser uma montanha, mas percebo que sou eu. A abertura está em meu peito e os corcéis entram em mim, através de uma cavidade localizada no meu peito, no meu coração. Minha expressão é de dor, e quanto mais os corcéis vão entrando maior eu fico. Vou crescendo até não caber mais no planeta, meus pés estão em cima da terra como se esta fosse uma bola de basquete, perco o equilíbrio e caio. Gigantesco, caio pelo espaço sideral entre as estrelas e os planetas. Cometas chocam-se em mim como moscas, sem me machucar, e eu não paro de crescer, tanto, cresço tanto que não caibo naquilo que seria o universo, o grande mistério para todos nós pobres mortais. Sinto uma dor enorme, agora cresce algo dentro de mim, abre-se uma fenda em meu umbigo, um raio de luz azulado sai em alta velocidade, vou diminuindo, diminuindo, até desaparecer.
Knock! Knock!
A porta.
Um rapaz, Eduardo.
Um balde de gelo e, Jamenson’s!

Monday, April 10, 2006

Sabrina


Um homem de smoking preto e cartola se move no meu campo de visão, que tem o enquadramento cinematográfico e generoso de abrigar ainda duas mulheres gordas ao seu lado. Uma de vestido verde limão, corte elegante estilo Cristian Lacroeux, a outra veste um preto justo de tecido chiquérrimo e brilhante, mas que marca todo seu corpo deformado pela obesidade. Algumas mesas repletas de garrafas de champagne, taças, cinzeiros e um arranjo de flores no centro, orquídeas. E muitas pessoas, todas alegres, embriagadas, envolvidas por um eletrizante frenesi. A música vem vibrante, penetrando os nervos, ligando, fazendo o sangue de todo mundo ferver.
Alegria, toque, calor, fumaça, perfumes, bebidas, bocas, olhos, gotas de suor brotando nas peles como orvalhos, sexo.
Afrouxo a gravata borboleta do meu smoking que está todo molhado com meu suor, na minha boca o gosto de champagne e cigarro. Preciso dar uma volta.
Dance me until the end of love.
No meio daquele emaranhado de corpos, enrosca-se ao meu um corpo pequeno, delicado, que me dá a impressão de estar em contato com o corpo de uma ave, um cisne. O pescoço fino, lisinho, exala um perfume doce e suave. A cintura fina e os quadris arredondados logo me despertam a sensação voluptuosa de luxúria . E muito próximo daqueles olhos verdes penetrantes que me autorizam a tudo, sinto o cheiro da vida que sai por uma boca vermelha que chama minha língua. Beijo-a demoradamente com força.
Com as veias do pescoço latejando como se o próprio coração quisesse sair pela garganta, saio pelo salão com velocidade de um caçador faminto segurando a minha caça pelo seu pulso fino, e por isso sinto seu batimento cardíaco disparado, que me incentiva a acelerar meus passos e sair logo daquela muvuca.
Um jardim enorme se abre para nós, o luar recorta os arbustos de um verde escuro. Nenhuma testemunha.
Embrenhamos-nos pelos arbustos.
Beijo.
Que lindos olhos.
Sabrina, e o seu?
Ramón.
Médico.
Modelo.
Seios.
Mãos.
Pau.
Penetração.
Saliva.
O tempo se dilata naquele vai e vem de puro prazer.
Seus olhos me fitam penetrantes, alegria.
Meu pau incha ainda mais dentro da sua vagina úmida, sinto o gozo iniciando seu percurso, em seus olhos a vida em seu estado puro de contemplação, minha mão direita pega uma arma na cintura.
Gozo.
Dois tiros, com silenciador.
Em seus olhos vejo a vida em seu ápice, e a sugo.
Com meu bisturi corto seu dedo anular direito, nele um anel de ouro com uma pedra de diamante, guardo-o num saquinho zip-lock de plástico.
Enquanto caminho em direção ao carro, a alegria irradia minha alma.
Para o Hotel.

O Alimento da Alma



Meu coração ainda disparado. Sinto minhas pernas tremerem, os músculos dos meus braços ainda frouxos, meu sangue ferve percorrendo minhas veias com uma velocidade acima da média. O ar entra e sai dos meus pulmões com intensa liberdade.
A noite me envolve e me faz sentir como se eu fosse parte dela, uma sombra, a poça d’água parada com o reflexo da lua cheia que grita no céu, o gato que cruza a rua deserta, o suspiro de alguém que sonha enquanto sente na pele arrepiada a brisa que entra pela janela semi-aberta.
Suo. Estou quente. E feliz.
Entro no meu carro, ligo a rádio, “Witchcraft”, Baker.
O endereço está nos fósforos, é perto daqui.
Cigarro.
Meu organismo volta a um estado regular, a adrenalina está se recolhendo.
No bolso do meu paletó, um volume. Visualizo um saquinho de plástico zip-lock, dentro dele um dedo. De mulher.
Cheguei.
Subo as escadas, passo pela porta de entrada. Um hall tosco, decadente, mas com uma áurea presente.
Eduardo.
As chaves, quarto 573.
Duas malas de roupas e minha maleta, de médico.
Serviço de quarto?
Tome esta nota, consiga-me uma, ou melhor, duas garrafas de Jameson’s e gelo, o troco é seu.
O elevador se abre, espelhos.
No fundo nos meus olhos, vejo a clareza de uma vida que não poderia ser diferente e assim a vivo, a minha vida. Converso com a minha alma, sei do que ela precisa, do seu propósito, e ela pede cada vez mais, como uma chama que nos últimos milímetros de pavio cresce e dança para que outra vela seja acesa com ela - um desejo da pobre chama de se tornar assim eterna - , seu pedido é o meu destino, que traço agora. Meu destino é o que deveria ser o de todos, alimentar a alma. E a minha pede, sem vergonha, sem julgamentos, sem pudor, sem pecados, cada vez mais e mais e mais...vida.
Tim.(!)
Corredor.
Tapete, vermelho.
A porta do quarto, lustrosa e brilhante de uma madeira muito escura, me dá a impressão de estar nos bons tempos daquele hotel decadente, localizado num lugar cheio de putas, drogados e delinqüentes.
O quarto está organizado, uma luminária avermelhada já me espera acesa, na parede um quadro de uma mulher nua, de costas, é Vênus de Velásquez.
Tiro do bolso minha lembrança, meu troféu, meu prêmio por ter seguido o desejo da minha alma. Dispo-me, pego meu prêmio, e entro embaixo no chuveiro quente. Enquanto a água cai sobre o meu corpo nu, me delicio com aquele “doce”, deixando apenas os ossos e o anel de ouro com uma pedra de diamante.
Sabrina. Seus olhos verdes me fascinaram logo no primeiro olhar.