Café da Tarde

Acabo de acordar após um sono profundo e reconfortante. Abro a janela e o dia já está quase acabando, 18h37. Ressoam aos meus ouvidos as palavras daquele rapaz, o tal, recepcionista, “O bar abre às 18h!”
Hum, que tal um café expresso bem forte, seguido de uma dose?
Banho.
Barba.
Perfume.
Roupas.
Saio pelo corredor. O tapete vermelho meio rasgado, a parede descascada...O teto embolorado dá a impressão de ter flores desenhadas. É realmente charmosa essa decadência!
Jazz tocando. Os donos têm bom gosto, embora não tenham dinheiro. Quanta generosidade a minha, acho que acordei bem humorado.
NO balcão uma criatura ambígua, não sei se é homem ou mulher, andrógino(a). Mas não me desperta grandes interesses.
“Por favor, um café expresso bem forte. Ah, também um cheeseburger, com carne mal passada, yogurte integral, aveia e mel. Vou sentar-me ali naquela mesa do canto.”
“Desculpe senhor, mas não temos isso para servir.”
“Então pode providenciar, enquanto isso me sirva uma dose de Jameson com uma pedra de gelo. Aqui está o dinheiro, o troco é seu.”
A decoração é legal. Vermelho, estofados de couro, meia luz, fotos na parede. Quem são? Ah, divas do cinema. Ok.
Lá vem ela, a criatura, meio macho, meio fêmea. Como alguém pode se submeter à...deixa pra lá, não vou gastar neurônios com isso.
“Aqui está senhor”.
“Muito obrigado, meu bem.” (afetado)
“As outras coisas já estão sendo providenciadas, aqui nós não temos muitos recursos, mas fazemos o possível para satisfazer os hóspedes.”
“Perfeito. Prá mim, fazer o possível já é mais que o suficiente”. (afetado)
“Com licença?”
“Toda.”
Cigarro.
Eduardo.
“Com licença, Dr. Navarro, o hóspede do quarto 13 deixou este bilhete para o senhor”.
“Obrigado”.
“Por sua culpa...o Eduardo...zombie no meu quarto...”
? Paranóia. Desestruturação. Vou escrever uma resposta à altura.
(...)
My breakfest!!
“Dr. Navarro, acrescentamos também umas tiras de bacon, espero que não se importe.”
“Vocês todos aqui são uns amores, estou me sentindo em casa. Thankyou.”
Frank Sinatra. Oh my God!
“I´ve got you, under my skin…”
(...)
Hum, delicious!
Nossa, como encheu esta espelunca! Está esquentando!
Ora, ora, uma boneca sentada no balcão. Vou até lá.
“Com licença?”
“Toda.”
É incrível como as mulheres caem por mim, não precisa muito, bastam poucas palavras saírem da minha boca, e elas logo se abrem.
“Aceita um drink?”
“Claro.”
“O criat..., meu bem! Dois Jameson’s, por favor.”
“Hospede?”
“Não, passante.”
“Trabalha por perto.”
“Sim, nas redondezas.”
“Sei.”
“Um brinde...À vida.”
“À vida.”
“E você, hospede?”
“Sim, cheguei ontem. Sou médico, trabalho com autópsia em crimes misteriosos, e faço algumas cirurgias, em clínicas distintas.”
“Sei. Você é da polícia.”
“Não, de jeito nenhum, apenas presto serviços para ela, em troca de alguns favores...sabe como é, nunca se sabe quando vai precisar “esquentar as costas.”
Olhar.
A felicidade me desperta a língua, quando me sinto bem acabo falando demais. Ok.
“Quer subir, conhecer meu quarto?”
“São 50,00.”
“Por hora? Há, há, há...Vamos!”
Muito bem, eu já estava mesmo com um certo tesãozinho se manifestando, acho que a refeição me “abriu o apetite”. Gosto desse estilo de prostitutas, são inteligentes, essa me olha de um jeito bem interessante, ela sabe das coisas, caminha com classe, tem o corpo magro, é alta, poderia ser modelo se quisesse, é bonita, muito bonita.
“Qual o seu nome?”
“Francine. E o seu?”
“Ramón.”
Beijo.
Aperto.
Ela me chupa. Faz meu membro enrijecer em sua boca.
É uma profissional. Toma as rédeas.
Pra cama. Espera me de quatro.
É só entrar.
(...)
Que delícia de sexo.
Fumamos juntos um cigarro e tomamos um drink, romântico.
É óbvio que ainda não estou satisfeito. Falta ainda o prazer maior, aquele que irá acalentar minha alma. Mas vou saborear mais essa mulher, ela é muito gostosa para morrer assim tão rápido.
“Vou te levar para outro lugar.”
“Onde?”
“Surpresa.”
“Tome, os 50,00 da primeira e mais 100,00. Agora vamos.”
Gosto desse momento, a adrenalina sobe, todo cuidado é pouco, ninguém pode nos ver. A partir de agora se inicia a intenção maléfica de cometer um crime. Até então eu estava sendo sincero, gozei de prazer e foi verdade, agradei essa mulher e foi verdade, dei prazer a ela e foi verdade, mas agora o que eu quero é a sua vida, então a partir de agora tudo o que eu fizer será para conseguir isso. Vou mata-la.
“Meu carro está estacionado atrás do hotel, me dê sua mão.”
Mãos suadas, quentes, sinto seu perfume misturado ao meu, estou excitado novamente, mas agora preciso de mais para me satisfazer.
Dou-lhe um beijo, ali no escuro da rua deserta.
Ninguém.
Não vou agüentar esperar e sair dalí, vou mata-la agora.
Minhas mãos percorrem seu corpo, acariciam seus seios, meus polegares tocam seu rosto redesenhando seus belos traços, param em seus olhos e, ela começa a ficar assustada e isso me dá mais prazer, brinco com ela.
Tiro do bolso um lenço branco e num movimento preciso - que só os médicos têm quando aplicam uma injeção numa criança rebelde – enfio em sua garganta com meus dois indicadores direitos, ela engasga enquanto eu furo seus olhos com meus polegares, com muita força até sentir seus lindos olhos afundarem em seu crânio, ela estremece e por fim, morre.
Arrumo seu corpo ali junto a uns entulhos, provavelmente levarão uns dois dias para que alguém o perceba, só mesmo quando começar a feder.
The Horror Palace Hotel.
Escadas.
Eduardo.
“Linda noite não Dr.?”
“Linda.”
“Deu-se bem hoje, não doutor? Bem gostosinha a Francine, ela faz ponto por aqui há muito tempo. Vi quando vocês subiram para o seu quarto...”
“Achei que a sua função era cuidar da recepção. Não sabia que além disso cuida da vida dos hospedes também.”
“Desculpe senhor, é que eu estava passando pelo corredor quando vocês saíram do bar.”
Vou ter que mata-lo, mas ele é tão insosso que não me desperta vontade.
“Boa noite Eduardo.”
“Boa noite Dr.”
O bar ainda está movimentado. A música está alta.
Mais um drink. Para comemorar.

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