Monday, April 10, 2006

O Alimento da Alma



Meu coração ainda disparado. Sinto minhas pernas tremerem, os músculos dos meus braços ainda frouxos, meu sangue ferve percorrendo minhas veias com uma velocidade acima da média. O ar entra e sai dos meus pulmões com intensa liberdade.
A noite me envolve e me faz sentir como se eu fosse parte dela, uma sombra, a poça d’água parada com o reflexo da lua cheia que grita no céu, o gato que cruza a rua deserta, o suspiro de alguém que sonha enquanto sente na pele arrepiada a brisa que entra pela janela semi-aberta.
Suo. Estou quente. E feliz.
Entro no meu carro, ligo a rádio, “Witchcraft”, Baker.
O endereço está nos fósforos, é perto daqui.
Cigarro.
Meu organismo volta a um estado regular, a adrenalina está se recolhendo.
No bolso do meu paletó, um volume. Visualizo um saquinho de plástico zip-lock, dentro dele um dedo. De mulher.
Cheguei.
Subo as escadas, passo pela porta de entrada. Um hall tosco, decadente, mas com uma áurea presente.
Eduardo.
As chaves, quarto 573.
Duas malas de roupas e minha maleta, de médico.
Serviço de quarto?
Tome esta nota, consiga-me uma, ou melhor, duas garrafas de Jameson’s e gelo, o troco é seu.
O elevador se abre, espelhos.
No fundo nos meus olhos, vejo a clareza de uma vida que não poderia ser diferente e assim a vivo, a minha vida. Converso com a minha alma, sei do que ela precisa, do seu propósito, e ela pede cada vez mais, como uma chama que nos últimos milímetros de pavio cresce e dança para que outra vela seja acesa com ela - um desejo da pobre chama de se tornar assim eterna - , seu pedido é o meu destino, que traço agora. Meu destino é o que deveria ser o de todos, alimentar a alma. E a minha pede, sem vergonha, sem julgamentos, sem pudor, sem pecados, cada vez mais e mais e mais...vida.
Tim.(!)
Corredor.
Tapete, vermelho.
A porta do quarto, lustrosa e brilhante de uma madeira muito escura, me dá a impressão de estar nos bons tempos daquele hotel decadente, localizado num lugar cheio de putas, drogados e delinqüentes.
O quarto está organizado, uma luminária avermelhada já me espera acesa, na parede um quadro de uma mulher nua, de costas, é Vênus de Velásquez.
Tiro do bolso minha lembrança, meu troféu, meu prêmio por ter seguido o desejo da minha alma. Dispo-me, pego meu prêmio, e entro embaixo no chuveiro quente. Enquanto a água cai sobre o meu corpo nu, me delicio com aquele “doce”, deixando apenas os ossos e o anel de ouro com uma pedra de diamante.
Sabrina. Seus olhos verdes me fascinaram logo no primeiro olhar.

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